Há mercado para continuar ativo como antes ou o advogado precisa se Reinventar?


No ano de 2006, formei-me bacharel em Direito. Antes disso, já vivenciava a rotina jurídica, pois minha mãe é advogada ativa até os dias de hoje. Com 44 anos de profissão, ela não parou e, sinceramente, acredito que não vá parar. Talvez apenas diminua o ritmo, mas abandonar a advocacia não parece uma opção.

A faculdade em si não é fácil e, à época, o ambiente jurídico também não era diferente. Convivíamos com disputas por clientes, além de condutas antiéticas por parte de alguns colegas. A carteira de clientes crescia, na maioria das vezes, pela indicação — o famoso “boca a boca”. Essa, sem dúvida, era a melhor propaganda.

Lembro-me de que alguns clientes pediam cartões do escritório para entregar a seus colegas de trabalho. Essa prática era corriqueira e, muitas vezes, resultava em cinco ou mais processos contra a mesma empresa. Recordo reuniões com mais de 15 pessoas na sala, todas lutando por seus direitos, e eu, fascinada, observava o poder de comunicação que minha mãe sempre demonstrou, conseguindo prender a atenção e esclarecer qualquer assunto para qualquer pessoa.

No nosso nicho, trabalhávamos com pessoas físicas, o que fazia com que o fluxo de atendimento fosse intenso. Consequentemente, vivíamos situações ricas de informações, histórias curiosas e a oportunidade constante de conhecer diferentes pessoas e lugares.

Esse foi o ambiente no qual praticamente nasci. Ajudava minha mãe a montar processos, anexar documentos em folhas de sulfite, numerar páginas e organizar os documentos em ordem cronológica. Tudo era feito manualmente, e passávamos horas nesse tipo de trabalho. Para mim, era fascinante: desde o ambiente até as pessoas. Os advogados, sempre vestidos com trajes muitas vezes imponentes, transmitiam respeito e profissionalismo.

A experiência que minha mãe trazia vinha do estágio em órgãos públicos e em alguns escritórios de advocacia. As rotinas jurídicas aprendidas nesses ambientes foram replicadas no seu escritório após a formatura. Procedimentos administrativos e judiciais eram aplicados e aperfeiçoados ao longo do tempo. Ela mesma dizia que, praticamente, tudo que fazia havia sido inspirado em outros escritórios — e nunca teve vergonha de afirmar isso. Afinal, ninguém nasce sabendo.

Durante minha faculdade, já trabalhava no escritório, cuidando das demandas administrativas, auxiliando em algumas questões jurídicas e participando do atendimento aos clientes. Eram pastas, papéis, arquivos volumosos e barulhentos, canetas, carimbos, etiquetas, selos, envelopes, clipes, grampeadores, furadores e tesouras — tudo em grande quantidade. Lembro-me bem das máquinas de escrever, pesadas, e acompanhei sua evolução, sempre curiosa em relação às novidades. Hoje, algumas delas fazem parte da decoração do escritório.

Após a formatura, continuei atuando no escritório, mas a administração passou a ficar cada vez mais sob minha responsabilidade. Realizava procedimentos bancários, atendia nos correios, resolvia demandas nos balcões das Varas — praticamente, fazia de tudo. Acompanhei de perto a evolução tecnológica dos tribunais, especialmente com a implantação do processo eletrônico nas Varas do Trabalho. Fazia cadastros de iniciais no sistema antes de protocolá-las e aprendia muito na prática, com tentativa e erro, já que, naquela época, o acesso a cursos e informações era bem mais restrito.

Nosso escritório foi escolhido pela juíza titular da Vara do Trabalho para inaugurar simbolicamente o Processo Judicial Eletrônico (PJe). Alguns colegas da cidade telefonavam para tirar dúvidas sobre o sistema, e outros até agendavam horários para que eu pudesse ajudá-los na distribuição de iniciais. Com a evolução tecnológica, fomos também obrigados a aperfeiçoar nossos procedimentos internos. Vieram os sistemas de gestão, o banco on-line, os e-mails, entre outras ferramentas. Tivemos que nos adaptar e, de certo modo, nos “curvar” à tecnologia, entendendo que ela otimizaria nosso trabalho e nos proporcionaria o bem mais valioso de um advogado: o tempo.

Assim, reinventar-se tornou-se indispensável. Ou o profissional se adaptava, ou não conseguiria mais advogar. Decidi me aprofundar na gestão, busquei cursos, conversava com colegas, observava procedimentos e analisava situações. Passamos por grandes marcos tecnológicos que impactaram diretamente a advocacia. Ledo engano de quem acreditava que a área jurídica permaneceria arcaica para sempre. Aqui estamos nós, precisando nos reinventar constantemente para nos mantermos ativos nesse mundo dinâmico.

Quem poderia imaginar que advogados sentariam ao lado de profissionais de outras áreas para discutir o futuro da profissão? Durante muito tempo, o setor jurídico foi extremamente seletivo e autossuficiente, acreditando depender apenas do próprio intelecto. Embora essa visão ainda tenha certo fundo de verdade, o conhecimento, quando não é expandido e integrado a outras áreas, perde valor.

Hoje precisamos dos programadores para auxiliar na gestão, dos profissionais de marketing para ampliar nossa visibilidade, dos jornalistas para fortalecer nossa imagem e assim por diante. Isso é, sem dúvida, se reinventar diante das mudanças do mundo. O fato é claro: estamos cercados e dependentes de profissionais de diversas áreas que facilitam nosso cotidiano, antes marcado pela burocracia.

O jurídico, por muito tempo, foi visto como uma área engessada, resistente a mudanças. A tecnologia, entretanto, abriu portas e permitiu a entrada de novos profissionais com ideias inovadoras, capazes de transformar e modernizar o setor. É possível, sim, seguir as leis com ética e profissionalismo, mas de forma mais ágil e estratégica, aproveitando o tempo de maneira produtiva para ampliar os negócios.

Claro que essa avalanche de inovações, em um primeiro momento, assusta e pode até paralisar alguns profissionais. Muitos se recusam a “surfar na onda”, mas chega uma hora em que ou se adaptam, ou são engolidos por ela. Hoje, a reinvenção do profissional do Direito é praticamente diária. Ela começa quando entendemos que nosso trabalho é, antes de tudo, um negócio. É através dele que vivemos, pagamos contas e realizamos sonhos. Enxergar a advocacia sob essa perspectiva empresarial é fundamental para sua modernização.

A reinvenção, entretanto, não se limita à adoção de novas tecnologias. Ela também envolve a consciência de que nosso tempo de estudo e dedicação nos torna empreendedores e gestores jurídicos. O advogado que compreende isso passa a enxergar seu escritório de forma macro, estruturado em setores, com necessidades e ajustes específicos para alcançar melhores resultados.

Outro ponto essencial é compreender que colegas de profissão não são rivais. Há espaço para todos, e a colaboração pode abrir portas importantes. Negar ajuda hoje pode significar não recebê-la no futuro. O advogado que se estagna, sem acompanhar as transformações, fica à margem da realidade e vê a “boiada passar”. Ser ativo, neste momento, significa estar em constante movimento: questionando, criando, reinventando, acertando e errando — mas sempre fazendo.

O mundo dos negócios é dinâmico, e esse dinamismo impacta diretamente os profissionais que dele fazem parte. Assim também ocorre no Direito, cuja evolução exige reinvenção contínua. Ela começa na estrutura do escritório, nos procedimentos adotados, na forma de gerir pessoas e no modo como os clientes são recebidos, até chegar à ciência da decisão final em um processo judicial.

A reinvenção é, portanto, uma forma de evolução drástica que exige redefinição profunda. O Direito cobra essa postura de nós constantemente. Aquilo que acreditávamos ser perene deixa de ser; o que antes era excelência perde espaço; práticas antigas deixam de ter valor. Reinventar-se requer planejamento, autocrítica e visão estratégica. Sem isso, a mudança pode se tornar um pesadelo. Toda transformação, ainda que mínima, deve ser planejada e executada da forma mais cuidadosa possível, diminuindo erros, retrabalho e,  até mesmo a desistências.

Conclui-se, portanto, que reinventar-se é indispensável para permanecer ativo em um mundo cada vez mais exigente e repleto de mudanças significativas. É necessário enxergar o negócio jurídico de forma ampla, sem medo ou dúvidas de que a reinvenção é positiva em todos os campos da vida — especialmente no profissional.

A gestão, nesse cenário, tornou-se primordial para o advogado que deseja se reinventar e alcançar melhores resultados. É dela que surge o aprimoramento do escritório como uma verdadeira engrenagem, onde o tempo — recurso mais precioso no universo jurídico — passa a ser valorizado como parte central do negócio.

Hoje, não há gestão sem tecnologia, sem a reinvenção dos procedimentos, sem o aprimoramento das ferramentas e do próprio profissional. Reinventar-se na advocacia não significa apenas fazer cursos ou se atualizar em determinada área. É entender que não existe Direito sem tecnologia. Podemos até sentir nostalgia ao lembrar do papel carbono, das fitas de impressora, dos volumes físicos de processos ou do barulho das máquinas de protocolo. No entanto, uma coisa é certa: não voltaremos no tempo.

Já dizia o poeta: É pra frente que se anda!

Se não estiver andando, parado você ficará. Assim, reclamação não será aceita. 

Seus resultados são consequencias das suas escolhas.

Se reinventar sozinho ou em grupo?

Não importa o que te apetece.

O certo é que, reinventar-se é mais que necessário para o profissional que quer sucesso e com isso, fazer da sua vida melhor e dos que o cercam.

Acredito muito nesta premissa. Nos reinventamos e contaminamos, ao menos, uma pessoa ao nosso redor. isso se multiplica inconscientemente.

Estar ativo, é diferente de se reinventar.

Posso estar ativo, fazendo a mesma coisa há anos.

Posso me reinventar ativamente.

Acredito ser esta ultima a melhor opçao!

Pense nisso!!!!

O que você reinventou na sua advocacia nos últimos anos?

Sobre a autora

Keily Teixeira Fonseca é formada em bacharel em direito desde 2006, possui pós-graduação pela FGV, de Campinas desde 2013 e MBA em Gestão Jurídica – IPOG 2024. Atualmente Gestora Administrativa Juridica Teixeira Fonseca Advocacia

Uma resposta

  1. Você me fez reviver o passado que nem tinha noção da trajetória. Parabéns. Sempre fui orgulhosa de você. Hoje em dose maior. Sucesso minha filha linda.

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Dra. Keily Teixeira Fonseca

Advogado10x – G10

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