Durante o período da pandemia do Covid-19, fomos todos, independentemente da área de trabalho, surpreendidos com a instantânea necessidade de nos adaptarmos, para que conseguíssemos, mesmo que de modo limitado, darmos continuidade às atividades profissionais. Essa mudança fez que nos atualizemos e busquemos recursos que, até esse momento, para muitos, não era necessária (ou achávamos que não era).
Passou a pandemia, mas essa nova realidade no mercado de trabalho continuou, impulsionada pelo ritmo de transformação das últimas décadas, os avanços da tecnologia, as mudanças sociais e as novas demandas dos clientes, impondo a nós, advogados, uma exigência inédita: o advogado que se apega apenas às práticas tradicionais corre o risco de se tornar irrelevante. Não se trata apenas de adotar ferramentas digitais, mas de repensar processos, valores e a própria concepção do exercício profissional. Reinventar-se deixou de ser uma alternativa para se tornar uma necessidade real!
Primeiro, é preciso reconhecer que a mudança não é um capricho tecnológico. Clientes, sejam eles pessoas físicas ou empresas, exigem agilidade, transparência e previsibilidade. A expectativa hoje é que um problema jurídico seja mapeado, quantificado e oferecido com alternativas de solução, custos e prazos razoavelmente estimados. Isso é compatível com metodologias e ferramentas que coletam dados, automatizam tarefas repetitivas e apoiam a tomada de decisão. Nesse sentido, quando o advogado não domina esses recursos, perde eficiência e, com isso, competitividade.
O domínio quanto à tecnologia jurídica tornou-se tão relevante quanto a compreensão dos princípios constitucionais. Assim, saber usar um sistema de gestão de processos, entender como funciona uma plataforma ou reconhecer os limites de um modelo de linguagem artificial quando ele sugere uma tese são conhecimentos práticos que complementam a técnica jurídica clássica.
A inteligência artificial é o exemplo mais emblemático e, ao mesmo tempo, o que provoca mais receio aos ainda incrédulos quanto a essa nova realidade. Ferramentas baseadas em IA já auxiliam na pesquisa jurisprudencial, na redação de peças padrão, na análise preditiva de riscos e até na automatização de rotinas contratuais. O que não podemos é
acreditar a IA veio para substituir o advogado. A visão mais produtiva é vê-la como amplificadora, ou seja, capaz de elevar produtividade, reduzir custos e liberar tempo para atividades de maior valor agregado: estratégia, negociação, litígio complexo e aconselhamento humano. A chave, portanto, é saber quando confiar na máquina e quando intervir com o olhar crítico e ético que só um profissional formado pode oferecer.
Outro aspecto que exige atualização é a gestão do escritório. O modelo de negócio jurídico tradicional é questionado por alternativas como assinatura jurídica e plataformas que agregam serviços. Advogados que insistem em modelos arcaicos podem perder clientes que buscam previsibilidade de custos e acesso mais fácil. A profissionalização da gestão com marketing jurídico dentro dos limites éticos, gestão financeira, uso de indicadores de desempenho, automação de atendimento e qualificação de equipe deixa de ser luxo e passa a ser condição de sobrevivência. Sim, porque somos empreendedores!
Outro ponto extremamente importante é a formação continuada e a interdisciplinaridade. A universidade prepara o jurista para pensar o direito, mas raramente ensina sobre design de serviços, análise de dados, cibersegurança, áreas que hoje impactam diretamente a relação entre advogado e cliente. Dessa forma, cursos de extensão, pós
graduação prática, treinamentos e, sobretudo, a cultura de aprendizagem contínua são essenciais. A advocacia do futuro é híbrida: exige conhecimento jurídico profundo combinado com entendimento tecnológico e sensibilidade para negócios.
Da perspectiva do acesso à justiça, a tecnologia oferece oportunidades transformadoras. Automação e plataformas digitais podem reduzir custos e ampliar alcance, permitindo que serviços jurídicos básicos sejam oferecidos a um público mais vasto. Isso, no entanto, traz um desafio: manter qualidade técnica e responsabilidade social sem cair na mercantilização predatória. Advogados podem e devem explorar modelos que equilibrem eficiência com tutela efetiva de direitos, utilizando tecnologia para humanizar, e não para desumanizar, o atendimento.
A reinvenção passa também pela comunicação. A linguagem técnica e hermética, muitas vezes usada por advogados, não atende às expectativas de clareza do cliente moderno. Saber traduzir falas jurídicas em termos compreensíveis, utilizar canais digitais e redes sociais de maneira ética e profissional é outra parte da nova competência do profissional
jurídico. Comunicação eficaz gera confiança e fidelidade, dois ativos fundamentais num mercado competitivo.
Há, evidentemente, barreiras. A resistência cultural, custos de implementação, dificuldade de acesso à tecnologia de ponta e lacunas formativas são obstáculos reais. Mas a inércia tem um custo maior: aumento de retrabalho, perda de mercado para concorrentes mais ágeis e exposição a riscos que poderiam ser mitigados com ferramentas adequadas. Escritórios e advogados individuais precisam avaliar com pragmatismo: quais processos repetitivos podem ser automatizados? Onde a análise de dados pode antecipar decisões?
Reiventar-se, portanto, não é trair a profissão, mas salvaguardá-la, adequar-se a essa nova realidade; é aceitar que o conhecimento jurídico, por mais sólido que seja, atinge apenas sua finalidade quando combinado com práticas e tecnologias que promovam eficiência, clareza e alcance. O futuro da advocacia não será dos mais tecnocráticos nem dos mais saudosistas, mas sim dos profissionais capazes de integrar tradição e inovação, técnica e tecnologia, prudência e ousadia. Quem der esse passo estará melhor posicionado para servir seus clientes, defender direitos e manter a relevância em um mundo que exige respostas rápidas e fundamentadas.
Sobre a autora
Membro da Comissão de de Prerrogativa da OAB Maringá PR, sua missão é defender o direito das pessoas, oferecendo atendimento em todas as áreas do direito, com a melhor assessoria e consultoria jurídica.
Andreia é idealizadora e proprietária da Advocacia Grutdner, que atua há mais de 10 anos em diversas áreas jurídicas: Criminal, Família, Cível/Consumidor, Bancário, Tributário, Trabalhista, Empresarial e Previdenciário. Em 2023, a Advocacia Grutdner foi considerado o melhor escritório de advocacia de Marialva-PR, sempre pautando seu trabalho na honestidade, ética, respeito, igualdade e comprometimento em prover soluções justas e humanizadas através do Direito.