Quando pensamos na pergunta “como você enxerga o momento atual do Direito?”, temos a sensação de se tratar de algo simples, mas essa pergunta carrega um peso quase que existencial para quem vive da advocacia. Ela não é apenas sobre normas, leis ou jurisprudência. Ela é, na verdade, sobre sobrevivência, identidade e adaptação. O Direito, como o conhecemos, está diante de uma ruptura que não é mais teórica, nem futura. Ela já se encontra no presente e está acontecendo, silenciosa para alguns, brutalmente evidente para outros.
O mundo vem evoluindo em uma velocidade que desafia qualquer parâmetro histórico anterior. Quando olhamos para a China e para o Vale do Silício conseguimos entender que não se trata apenas de evolução incremental, mas de saltos exponenciais. A tecnologia deixou de ser ferramenta auxiliar e passou a ser o próprio ambiente onde a vida acontece. Saúde, educação, finanças, entretenimento, tudo foi profundamente impactado. Na medicina, diagnósticos são feitos em minutos por telemedicina, algoritmos analisam exames com precisão cirúrgica e procedimentos são realizados a milhares de quilômetros de distância. Isso não é mais ficção científica, é rotina.
Diante desse cenário, a pergunta que não quer calar é: o Direito ficou imune a essa transformação? Sinceramente, resposta honesta é não. O Direito foi alcançado, atravessado e, em muitos aspectos, atropelado por essa expansão tecnológica. A diferença é que, enquanto outras áreas perceberam o impacto e reagiram com velocidade, grande parte da advocacia ainda tenta negar o óbvio ou se apegar a um modelo que simplesmente não conversa mais com a realidade.
A boa e velha advocacia do boca a boca, do escritório silencioso, da placa discreta na porta e da espera passiva pelo cliente que “bate à porta” funcionou durante muito tempo. Houve uma época em que trocar cartões, frequentar os mesmos círculos sociais e manter um nome respeitável bastava. Depois veio a internet, e com ela uma primeira ruptura: quem não estava no Google simplesmente não existia. O “Google Meu Negócio”, as avaliações, os comentários e a presença mínima online deixaram de ser diferencial e passaram a ser condição de existência.
Hoje, esse movimento se repete em um nível ainda mais profundo. Com o crescimento exponencial da inteligência artificial generativa, entramos em uma nova camada de visibilidade. Em um futuro que não é distante, é praticamente amanhã, a pergunta não será mais se o cliente te encontra no Google, mas se a inteligência artificial te reconhece como referência. Se sistemas como GPT, Gemini e outros mecanismos de busca conversacional não conseguem localizar você, compreender sua autoridade e associar seu nome a uma especialidade, é como se você simplesmente não existisse no mercado.
Esse ponto é desconfortável, especialmente para a advocacia tradicional. Ele exige admitir que competência técnica, por si só, deixou de ser suficiente. Não porque ela perdeu valor, mas porque ela se tornou invisível quando não é comunicada. O mundo digital não premia quem sabe mais, ele premia quem consegue demonstrar valor de forma clara, acessível e constante.
A velha advocacia, no formato clássico e isolado, não tem como resistir a esse fenômeno. Isso não é um ataque à tradição, nem um desprezo pela história da profissão. É apenas a constatação de que modelos de negócio, assim como instituições, precisam evoluir para permanecer relevantes. No entanto, é importante dizer: nem tudo da velha advocacia morre. Existe uma parte essencial que sobrevive, e mais do que isso, se torna ainda mais necessária.
Essa parte é a construção do nome. A elevação da marca pessoal. O fortalecimento da identidade do advogado como líder, como referência, como autoridade real em sua área de atuação. A diferença é que, hoje, essa construção precisa ser pública, digital, rastreável e reconhecível pelos sistemas que mediam a relação entre pessoas e informação.
O advogado deixa de ser apenas um operador do Direito e passa a ser, inevitavelmente, um comunicador, um gestor de marca e um empresário intelectual. Isso não significa banalizar a profissão ou transformá-la em entretenimento vazio. Significa compreender que o valor jurídico precisa ser traduzido para o ambiente onde as pessoas vivem, consomem informação e tomam decisões.
Ser um excelente advogado, com sólida formação acadêmica, experiência prática e domínio técnico, continua sendo o alicerce de tudo. Nada substitui isso. O que mudou é que, sem comunicação estratégica, esse conhecimento fica restrito a um círculo cada vez menor e menos relevante. O novo cenário exige que o advogado desenvolva, de forma consciente, competências em marketing jurídico, branding, comunicação, imagem pessoal e posicionamento estratégico.
Isso passa, inclusive, pela forma como o advogado se apresenta. Vestimenta, linguagem, postura e narrativa precisam dialogar com o público que se deseja alcançar. Não existe mais uma advocacia genérica. Existe advocacia especializada, segmentada, posicionada. O profissional que tenta falar com todos acaba não sendo reconhecido por ninguém.
O medo das redes sociais é um dos maiores bloqueios desse processo. Durante muito tempo, criou-se uma falsa oposição entre seriedade e presença digital. Como se estar no Instagram, no TikTok ou no YouTube fosse incompatível com a dignidade da profissão. Essa visão já se mostrou equivocada. As redes não diminuem o advogado, elas amplificam quem sabe usá-las com inteligência, ética e estratégia.
É evidente que existem limites deontológicos, e eles devem ser respeitados com rigor. Publicidade jurídica não é autopromoção vazia, nem promessa de resultado, nem espetáculo. Mas dentro desses limites existe um espaço enorme para educar, informar, posicionar e construir autoridade. Mostrar conhecimento não é infração ética, é prestação de serviço social. Aproximar o Direito das pessoas não banaliza a profissão, pelo contrário, humaniza e fortalece sua relevância.
O advogado precisa entender que sua presença online funciona como uma vitrine permanente. Ali estão expostos seus valores, sua visão de mundo, sua forma de pensar e sua capacidade técnica. É nesse ambiente que se constrói o sentimento de pertencimento, de confiança e de identificação. As pessoas não escolhem apenas um currículo, elas escolhem alguém em quem confiam para defender aquilo que lhes é mais sensível: patrimônio, liberdade, saúde, família, reputação.
Quando um cliente escolhe um advogado hoje, ele não escolhe apenas um prestador de serviços. Ele escolhe um representante, um porta-voz, alguém que carregará sua história e seus conflitos. Por isso, a conexão emocional, ainda que racionalmente negada por muitos juristas, é decisiva. A presença digital bem construída permite exatamente isso: que o público conheça o profissional antes mesmo do primeiro contato formal.
Instagram, TikTok, YouTube, LinkedIn e outras plataformas não são modismos passageiros. Elas são infraestruturas de comunicação. Ignorá-las é o equivalente moderno a se recusar a ter telefone ou e-mail décadas atrás. O advogado que compreende isso não se expõe de forma aleatória, mas estratégica. Ele escolhe temas, linguagem, frequência e formatos alinhados com sua especialidade e com o público que deseja atender.
Além disso, a produção acadêmica continua sendo relevante, talvez mais do que nunca. Artigos, livros e pesquisas não perderam valor. O que mudou é que eles precisam estar integrados a uma estratégia maior de visibilidade. Um artigo que ninguém lê é conhecimento desperdiçado. Um livro que não circula digitalmente é uma autoridade silenciosa. A presença online potencializa a produção intelectual, permitindo que ela alcance públicos que jamais chegariam por meios tradicionais.
Outro ponto central dessa transformação é entender o advogado como marca pessoal. Isso não é vaidade, é estratégia de sobrevivência. Marcas não são apenas logotipos, elas são percepções. O que as pessoas pensam quando ouvem seu nome? Em que área você é imediatamente associado? Que tipo de problema você resolve? Que tipo de postura você representa? Essas respostas não surgem por acaso, elas são construídas.
A inteligência artificial acelera ainda mais esse processo. Algoritmos organizam o mundo com base em padrões, relevância e recorrência. Quem produz conteúdo consistente, de qualidade e alinhado com sua especialidade, passa a ser reconhecido não apenas por pessoas, mas por sistemas. E esses sistemas, gostemos ou não, serão cada vez mais intermediários na escolha de profissionais.
O momento atual do Direito é, portanto, um momento de transição profunda. Não é o fim da advocacia, mas o fim de um modelo específico de advocacia. O profissional que insiste em atuar como se ainda estivesse nos anos 1990 não está sendo fiel à tradição, está sendo resistente à realidade. E a realidade, como sempre, não espera.
O advogado que sobreviverá e prosperará nesse novo cenário é aquele que consegue unir profundidade técnica com capacidade de comunicação, ética com visibilidade, tradição com inovação. É aquele que entende que autoridade não se impõe pelo silêncio, mas pela presença consistente e pelo valor entregue de forma contínua.
Em última análise, o Direito continua sendo essencial para a organização da sociedade. Conflitos continuarão existindo, direitos continuarão sendo violados e a figura do advogado continuará sendo indispensável. O que muda é o palco, os holofotes e as regras do jogo. Quem entender isso agora estará alguns passos à frente. Quem negar, provavelmente só perceberá quando já for tarde demais.
O momento atual do Direito não é de crise, é de seleção. Não sobrevive o mais antigo, nem o mais tradicional. Sobrevive quem consegue evoluir sem perder a essência. E essa, talvez, seja a maior responsabilidade do advogado contemporâneo.
Sobre o autor
Rodrigo G. P. Miqueloti é advogado de Nova Iguaçu, no Rio de Janeiro, especialista em Direito Médico, Direito Civil e Processual Civil e Mestrando em Direito Médico-Odontológico.