O advogado do futuro não será lembrado pelos processos que venceu, mas pelos conflitos que evitou.

Durante muito tempo, a advocacia foi medida pela quantidade de processos vencidos, pelas teses sustentadas em juízo e pela capacidade técnica de interpretar a lei.

Esse modelo fez sentido durante décadas. Mas o mundo mudou.

Hoje, o empresário não procura apenas um advogado que conheça a legislação. Ele procura alguém capaz de compreender o seu negócio, antecipar riscos, construir segurança e participar das decisões que definirão o futuro da empresa.

É justamente aí que acredito que começa a nova advocacia.

Não porque o Direito tenha perdido importância. Mas porque o papel do advogado deixou de ser exclusivamente reativo para se tornar profundamente estratégico.

Vivemos uma época em que a inteligência artificial pesquisa jurisprudência em segundos, elabora contratos, resume processos e automatiza tarefas que antes consumiam horas de trabalho.

Muitos enxergam essa transformação como uma ameaça.

Eu prefiro enxergá-la como uma oportunidade.

Sempre que uma atividade repetitiva é automatizada, aquilo que é essencialmente humano passa a ter ainda mais valor.

Conhecimento jurídico continuará sendo indispensável.

Mas deixará de ser suficiente.

O diferencial do advogado do futuro não estará apenas na capacidade de interpretar normas.

Estará na capacidade de compreender pessoas.

De construir confiança.

De conduzir conversas difíceis.

De fazer as perguntas certas antes que os problemas existam.

Depois de mais de trinta anos atuando na advocacia empresarial e, especialmente, no franchising, aprendi uma lição que nunca encontrei nos livros.

Raramente o problema está no contrato.

O contrato apenas revela problemas que já existiam.

Ao longo da minha trajetória acompanhei empresas crescerem de forma extraordinária.

Também acompanhei redes promissoras desaparecerem.

Poucas fracassaram por uma cláusula mal redigida.

A maioria fracassou porque deixou de enfrentar conversas difíceis no momento certo.

Quando o advogado finalmente era chamado, o problema já havia deixado de ser jurídico.

Antes dele vieram a queda das vendas, o enfraquecimento da cultura organizacional, a perda da confiança, os conflitos entre sócios, a deterioração das relações e o desequilíbrio financeiro.

O processo era apenas a última consequência.

Foi essa percepção que transformou completamente a minha forma de exercer a advocacia.

Hoje acredito que a maior missão do advogado contemporâneo não é apenas resolver conflitos.

É impedir que eles aconteçam.

Isso exige muito mais do que conhecimento técnico.

Exige visão de negócios.

Exige liderança.

Exige escuta.

Exige transparência.

Exige coragem para participar das decisões antes que elas se transformem em litígios.

É por isso que passei a falar menos sobre processos e mais sobre cultura.

Menos sobre disputas e mais sobre prevenção.

Menos sobre cláusulas e mais sobre relações.

Não porque os contratos tenham perdido importância.

Mas porque eles nunca foram o início da história.

São apenas o instrumento que registra aquilo que deveria existir antes: clareza, alinhamento de expectativas e confiança.

Também acredito que a cultura organizacional deixou de ser um tema exclusivo da administração.

Ela passou a ser um ativo jurídico.

Empresas com cultura forte tendem a comunicar melhor, decidir melhor e resolver conflitos com mais maturidade.

Empresas que negligenciam sua cultura frequentemente transformam problemas de gestão em demandas judiciais.

Da mesma forma, liderança e transparência deixaram de ser competências desejáveis apenas para executivos.

Hoje, também fazem parte da advocacia.

Porque, muitas vezes, somos nós, advogados, que conduzimos as conversas mais difíceis dentro de uma organização.

O Direito não acabou.

Ele está sendo convidado a voltar à sua essência.

Servir às pessoas.

Não apenas por meio da lei, mas por meio das decisões que ajudam empresas a crescer de forma sustentável.

Tenho convicção de que o advogado do futuro continuará estudando leis, analisando contratos e acompanhando a evolução da jurisprudência.

Mas será lembrado por algo muito maior.

Pela confiança que inspira.

Pelas decisões que ajudou a construir.

Pelas relações que preservou.

E pelos conflitos que conseguiu evitar antes mesmo que eles existissem.

Porque vencer um processo continuará sendo importante.

Mas construir relações capazes de dispensá-lo talvez seja a mais nobre missão da advocacia contemporânea.

Ana von Jess

SOBRE A AUTORA

Ana von Jess é advogada especializada em Direito Empresarial, com ênfase em sistemas de franquia. Ex-Diretora Jurídica e atual Coordenadora da Comissão de Ética e ESG da Associação Brasileira de Franchising – Rio de Janeiro, Membro do Comitê de Apoio Técnico e Jurídico da Associação Brasileira de Franchising e sócia fundadora do escritório Von Jess & Advogados e da Consultoria Franchise Mind.

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Dra. Ana von Jess

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